Annie Graz

Por Célia Gambini e Vânya Tsutsui

Annie Graz nasceu em 1921, na cidade de Toul, no leste da França, e veio para o Brasil alguns anos depois da Segunda Guerra, acompanhada do marido e de dois filhos e “meio”.

 

Na loja de seu primeiro marido conheceu o casal Regina Gomide e John Graz. Naquela época, não imaginava que, anos mais tarde, iria se tornar a segunda esposa de John. Depois de se divorciar do primeiro marido e da morte de Regina Gomide, eles se encontraram por acaso. Começava ali uma história de amor, que se iniciou em 1974 e durou até a morte do artista plástico. Após ficar viúva, Annie dedicou-se à organização e conservação da obra do artista, que atualmente pode ser consultada na página do Instituto.

 

Quando você veio ao Brasil?

Eu vim para o Brasil em 1947, depois da guerra, com dois filhos e “meio” (risos). Meu primeiro marido era engenheiro francês e veio para tratar dos negócios da família, uma loja muito conhecida na época, “Casa Michel”, que ficava na esquina da Rua 15 de novembro com a Rua da Quitanda e importava objetos de arte, relógios, coisas assim. Viemos para passar um ano, só que ainda estamos aqui.

 

A senhora sempre viveu em São Paulo?

Já viajei pelo Brasil, mas morei sempre em São Paulo. Aliás, São Paulo foi tão gostoso antigamente. Como era bom quando a gente podia circular. Agora você tem que calcular a hora em que vai a algum lugar e geralmente fica no seu bairro. Às vezes, você faz compras perto de casa, somente para facilitar a vida.

 

Como a senhora conheceu John Graz?

Quando cheguei aqui e as crianças podiam ficar com a babá o dia todo, eu comecei a ir até a loja e a gente montava os abajures para os vasos. Quem fazia esses abajures era a Regina [Gomide], a primeira esposa do John, que além da tapeçaria – ela havia deixado a tapeçaria – fazia abajures. Então, conheci a Regina e depois tivemos amigos franceses comuns. Meu marido e eu encontrávamos John e Regina na casa de amigos.

 

O que me interessava muito era a arte do John, mas nessa época ele tinha abandonado a pintura, porque não dava para sobreviver. O tempo foi passando e depois que a Regina faleceu encontrei o John num jantar de uma tia do meu ex-marido (eu já era divorciada). Ela convidou o John também, porque era amiga de infância da irmã dele, eram da mesma escola, na Suíça. E lá encontrei o John, que me convidou para ir ao ateliê ver as obras dele e a gente começou a sair juntos.

 

Quando foi isso?

Em 1974. Nós casamos no fim de 74, lá na Suíça, e depois fizemos o casamento aqui.

 

Em que ano ele chegou no Brasil?

Em 1920.

 

E veio por causa da Regina?

Ele veio para casar com a Regina, que tinha conhecido junto com o irmão dela, o Gomide, na Escola de Belas Artes, em Genève. Na época, toda a família Gomide estava lá. Então o John ficou noivo e veio casar aqui, sem saber se ia ficar ou não. E participou da semana de 22.

 

E como era a relação de amizade do John com os modernistas?

A maior amizade foi com o Brecheret, que foi padrinho de casamento deles. Os outros ele conhecia, encontrava, mas a colaboração artística era com o Brecheret.

 

Como o John era?

A pessoa mais cativante do mundo. Uma pessoa educadíssima, culta, generosa, agradável, bem-humorada, sensível. Uma pessoa com a qual era um prazer conviver. E a vida com ele infelizmente durou poucos anos.

 

Quando ele faleceu?

Em 80. Nós casamos em 74. Foi um encontro mesmo especial, era uma coisa maravilhosa, porque a gente concordava em tudo. Qualquer objeto que íamos escolher numa loja, a gente podia andar separado, que, depois, a gente se encontrava no mesmo lugar. A gente gostava das mesmas coisas. E eu admirava muito o John.

 

Ele costumava voltar para a Suíça?

No começo, voltava pouco, por falta de dinheiro. Depois, foi a guerra. A Regina não fazia muita questão dele voltar para a Suíça, pois tinha medo que ele quisesse ficar por lá. Mas ele sempre foi ver a irmã e depois que casamos, íamos todos os anos. Inclusive da Suíça, fizemos exposições que foram para a Itália, Grécia, Marrocos, França. Ele escrevia toda semana para a irmã dele. Como a irmã o chamava de ‘gato’ (em francês “mon chat”), comecei a chamá-lo de ‘gato’ e a família, até o meu neto, falava: “Gato! Gato!”.

 

Uma vez, um dos meus netos, que tinha um chapéu de Mickey Mouse – o John já tinha 84 ou 85 anos, numa casa da Joaquim Antunes, com uma escada – estava com o chapéu e falava: “Vem, gato, acho que você não vai me pegar”. E ele subia a escada e ia correndo atrás.

 

A maioria da coleção dele está com você?

Todo o acervo está comigo.

 

Você conseguiu organizar tudo?

Consegui (risos). Depois que o John faleceu, comecei a me mexer para organizar o acervo, porque ele adorava ordem, mas não queria fazer e não deixava ninguém organizar. Então, estava tudo jogado no armário.

 

Mas ele tinha anotações?

Poucas. Eu levei quase 20 anos para organizar tudo. Primeiro, quando eu tive que sair da casa onde morávamos. Então, eu aluguei escritórios fora. Mas nunca estava tranquila, não era o ambiente necessário. Aí eu vim parar aqui.

 

Foi aí que conseguiu?

Consegui, mas ainda não está arrumado de maneira museológica, como eu queria. Mas tem uma moça agora, que é professora de arte e está fazendo mestrado e doutorado sobre o John. Todo o material está aqui, ela vem e, ao mesmo tempo, trabalha para o instituto fazendo a catalogação. Então, já está sendo preparado, para o dia em que a gente mudar daqui.

 

E quanto à conservação?

Eu consegui e nossos curadores estão admirados. O que não está conservado, é porque não estava antes. Há uma grande parte de restauro para fazer, mas que será feita com patrocínio, logicamente. Mas não é que estragou aqui, é porque estava jogado. Porque o John não se preocupava nunca com o que tinha sido feito, sempre com o que viria a fazer. Ainda no hospital, antes de falecer, ele falava: “Acho que quando a gente voltar para casa, eu vou procurar uma fase que seja um pouco entre o abstrato e o figurativo”.

 

Ele tinha projetos?

Tinha projetos, sim. Ele disse: “Você sabe de uma coisa? Eu vou voltar um pouco para a escultura”. Estava sempre indo para frente e nunca se queixou de tudo que sumiu da arte dele. Porque sumiu, todas as casas da época, onde ele fez instalações, foram demolidas para ser substituídas por arranha-céus. Tem gente que morava em casas grandes e foi para um apartamento menor. Nem todo mundo guardou as coisas, porque não cabia mais. Então, sumiu, e ele nunca se queixou. Na avenida Paulista, há muitas casas que sumiram.

 

E como foi a relação dele com a Suíça?

Ele foi sempre bem suíço. Mas sentia falta de um pouquinho qualquer de manifestação da Suíça.

 

Mas, em contrapartida, os brasileiros o reconheceram muito.

Sim, os brasileiros, sim. Ele foi reconhecido, faz parte dos manuais de história da arte, de estudantes, como essa professora que está fazendo a tese sobre o John. O Brasil o reconheceu.

 

E como era a relação dele com o Brasil?

Adorava, só era contra os deputados. A obra dele explodiu no Brasil. Ele tinha a cor do Brasil, gostava dos índios, da arte brasileira, do artesanato brasileiro, tudo o que é bem brasileiro. Aliás, ele não podia pintar fora daqui. Ele fazia qualquer viagem, ele anotava, tirava fotografia, mas para pintar era aqui. Tinham dois países que o inspiravam muito. A Espanha, para onde ele foi antes de vir ao Brasil, porque ganhou uma bolsa para estudantes. Na Pinacoteca tinha um quadro da Semana de 22, que ele pintou na Espanha. E o Brasil, tudo o que era natureza brasileira.

 

Quais foram as influências estéticas dele?

A obra dele é uma só, mas se divide em duas: a parte do design e a do artista plástico. Na arte plástica, no começo ele recebeu muita influência dos mestres suíços da sua escola, como Eduardo Ravel, que era tio do Maurice Ravel. E o tio falava assim do sobrinho: “Eu tinha um sobrinho, Maurice, que fez uma música” (risos). Ele adorava o Bolero. E transpunha as cenas da passagem heróica da Suíça na história dos bandeirantes daqui. Foi essa influência. Depois, ele gostava muito do Cézanne. No design, que eu me lembro foi o art-deco, porque não tinha ninguém fazendo art-deco ainda e não tinha nenhum catálogo, ninguém ia para a Europa nessa época. Aqui ele foi o precursor do art-deco.

 

Ele tinha também uma influência do Bauhaus?

Claro que tudo isso é da formação dele.

 

Esse lado multidisciplinar, de passar por tantas linguagens, tem a ver com essa preferência, não?

Exatamente. Especialmente vindo depois do art nouveau. Porque eu sou da cidade do art nouveau, a 20 km de Nancy, onde fica o museu de art nouveau. Sei que do ponto de vista artístico é muito bom, do ponto de vista exterior, tudo isso é muito interessante. Os móveis, eu não queria isso por nada no mundo na minha casa, mas artisticamente é bonito. Acho que não se pode comparar um pintor com outro, mas o que diferencia John dos outros é o fato de ele ser multidisciplinar. Você sente na própria obra do pintor o subjetivismo dele, sente que o artista plástico e o designer se misturam. São duas coisas separadas, mas uma pessoa só.

 

Mas ao mesmo tempo ele não perdeu o estilo...

Depois que ele lançou o art-deco no Brasil, virou moda, todo mundo queria e depois acabou. Até na construção: faz uma loja, muda, quebra tudo, começa de novo e volta à mesma coisa. Bom, também esse é o único jeito dos fabricantes ganharem dinheiro. Ele trabalhou muito com o Liceu de Artes e Ofícios.

 

O Brecheret trabalhava lá, tinha um ateliê no Liceu.

É verdade. Mas o John desenhava tudo, as fechaduras, os banheiros, ele estudava tudo. Agora, depois dos anos 40, veio a moda do estilo aqui e ele teve que fazer estilo para vender. Mas até o estilo é diferente, tem a marca dele também. Porque o estilo dele, que seja Luis XV, Luis XVI, é muito mais puro. Mas essa parte é muito importante, porque ele fez também. É isso que a gente esquece geralmente. Aquela professora, por exemplo, para a tese de doutorado, o livro que a gente espera produzir também terá essa parte, porque isso é a obra dele.

 

A gente gosta mais de uma coisa ou de outra, mas não é a obra toda.

 

E essa fase talvez não seja tão conhecida?

Não, porque acontece que quando um crítico vem fazer alguma coisa, em vez de vir aqui procurar, pega o que já foi editado, então, saem os mesmos quadros, tudo igual. Não procuram, entende? Se não é um estudioso, que quer saber a obra a fundo, quando é para fazer um artigo, uma crítica, é muito mais fácil pegar um livro qualquer.

 

De onde é essa pessoa que está fazendo a pesquisa?

Ela é da FAU (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo). Então, o livro vai ser sobre essa parte de design. Ele foi arquiteto de interior, tinha um diploma de arquiteto da Escola de Belas Artes. Ele foi designer, foi artista plástico, foi decorador. Então, é muito complexa a obra dele, muito rica.

 

E o Instituto, como é que está? Vocês agora fizeram o site?

A parte administrativa do Instituto está com a Claudia, minha neta. O site já existe para quem quiser navegar. Meu grande trabalho agora é tirar do mercado tudo o que é cópia. Cada vez que vem o nome, vem copista. Outro dia, o Marcel me chamou, porque tinha alguém que queria lhe vender 102 desenhos. Achei que muita coisa na mão de uma mesma pessoa. Era alguém do Rio, que mandou o material por disquete e era tão ridículo, porque não tinha nada a ver com assuntos que o John podia ter tratado. Geralmente, quem copia, apenas tenta fazer algo parecido, mas não era nada. E o pior é que a pessoa ficou zangadíssima porque eu não quis comprar. E tem muita gente que vem às galerias, porque agora o Instituto criou o conselho de autenticidade. Então, os que sabem vêm nos procurar e o curador do instituto, que trabalha comigo há 20 anos, reconhece ou não se é autêntico. Já tirei obra também de leilão.

 

Quando surgiu a idéia de criar o Instituto John Graz?

Sempre foi meu sonho, mas sozinha eu não tinha nenhuma possibilidade, nem material, nem física. Eu tenho a sorte de ter uma neta que montou um Instituto Cultural. Apesar de ter feito uma faculdade de Relações Internacionais, o que interessa a ela é a cultura. Ela trabalha no Brasil também há algum tempo.  Trabalhou com a Mônica Serra, até que montou o próprio instituto e trabalha muito para o Sesc. Então, era o lugar certo, porque assim eu fiz a doação de tudo para o instituto e sei que vai ficar na mão de alguém.

 

A família do John aqui se interessa muito, mas lá na Suíça não sabem nada da obra dele. Os que vêm aqui para me ver, conhecem porque eu mostro, mas, depois de mim.

 

Meus outros filhos gostam, mas todos trabalham e têm outras coisas a fazer. Porque eu precisava de dedicação total e minha sorte foi a Claudia.

 

Como ficou a sua história da França e o Brasil?

Quando estou na França, tenho saudades do Brasil, quando estou no Brasil, fico com saudades da França.

 

Mas você se sente brasileira também?

Certamente, eu me sinto brasileira também. Vivi a maior parte da minha vida entre os brasileiros. Eu me sinto mais em casa aqui.

 

A senhora costuma voltar para a França?

Voltei pela última vez esse ano. Não vou mais, porque eu quero ser enterrada junto com o John. Eu vou me sentir mais isolada lá, porque prefiro ficar onde estão minhas filhas, mas está ficando um pouco cansativo. Então, resolvi que agora não vou mais. Eu me dedico inteiramente ao Instituto até o fim. Senão, eu amo o Brasil, eu defendo o Brasil com unhas e dentes.

 

Acha que o Brasil, para vocês dois, também ajudou a curar um pouco as feridas de guerra? Havia essa idéia de uma terra nova, um lugar novo, que era possível ter um sonho?

Quando eu vim, eu já tinha esquecido a guerra. Eu já estava bem acostumada, nunca foi difícil me acostumar com o Brasil. Ainda mais que eu estava saindo de uma época de guerras, de privações, de quase morrer de fome. Então, qualquer coisa me parecia boa e o Brasil era tão fácil, tão acolhedor, tão gostoso, nessa época, não tinha todos os problemas de agora. Eu me apaixonei, nunca pretendi voltar. Eu sempre vi o lado bom. Finalmente, no mundo inteiro, nada é perfeito. É preciso saber olhar o que é bom..

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