Beat Meier

Por Vânya Tsutsui

Natural da Suíça alemã, Beat Meier veio ao Brasil em 1982, movido pela ideia de ser professor e trabalhar numa escola suíça na América Latina.

 

Com a mochila nas costas, fez uma viagem de meio ano pela América do Sul, visitou as escolas suíças e, do México, candidatou-se para uma vaga de professor em São Paulo. Casado com uma brasileira, com dois filhos, Meier vive até hoje na capital paulistana. Abrir os olhos e ver uma montanha com neve é a única coisa de que sente falta.

 

Além de dar aulas, o professor tem um hobbie: a pesquisa sobre imigração suíça no Brasil. A paixão pela história levou-o a coletar um material riquíssimo sobre a presença dos suíços no Brasil, dos primeiros missionários e desbravadores até os dias de hoje.

 

Em que ano o senhor veio ao Brasil?

Eu cheguei em 1982

 

E veio sozinho?

Com a mochila (risos). Fiz uma viagem de meio ano pela América do Sul, visitando as escolas suíças e me candidatei no caminho. Quando cheguei aqui, só precisava assinar o contrato. E fiquei.

 

Quais foram os motivos que o levaram a vir para o Brasil?

Queria conhecer uma outra parte do mundo, fora da Suíça. Como sempre tive dificuldade de aprender línguas, achei que se eu vivesse no país talvez fosse melhor. Ainda tenho dificuldades, mas me adaptei, pelo menos culturalmente.

 

Já falava português antes de vir?

Fiz só um curso de português de Portugal. E como um teste, pensei: “Será que com 30 anos eu aguento viajar sozinho?”. Fui para os Açores por um mês, apenas com a “cabana” nas costas, para ver se realmente esse projeto de viajar meio ano seria viável.

 

O senhor já veio com o interesse de ser professor?

Com tantos suíços na América Latina, eles me chamaram já com grande interesse, quando eu estava fazendo curso para ser professor.

 

Sempre pensei nessa possibilidade, mas, antes de assinar um contrato lá na Suíça, sem saber para onde ia, optei por vir conhecer.

 

Fiquei duas a três semanas em uma escola, pesquisando como eles trabalhavam no jardim de infância e no ensino fundamental, porque era essa a área que mais me interessava. E ver como eles lidavam com o ensino da língua alemã.

 

Depois, tinha essa vaga em São Paulo e me candidatei lá do México. Dei uma aula de amostra em Lima. Eles mandaram um relatório para São Paulo e, em Santiago, recebi a informação de que tinham interesse em me contratar. Quando cheguei ao Brasil, liguei de Porto Alegre para a escola e falaram: “você foi eleito ontem à noite e se quer a vaga, vem rápido para assinar o contrato, porque senão vamos pegar o próximo da fila”.

 

Além de São Paulo, o senhor morou em outras cidades?

Desde o início morei aqui, mas como minha esposa é de Santa Catarina, durante quase 20 anos tivemos um apartamento em Florianópolis. E nas férias sempre ficávamos lá, perto da família.

 

Como é a experiência de ser professor no Colégio Suíço-Brasileiro?

Para mim, é ótimo! Como já tive várias profissões, realmente achei o que é melhor para mim. Além do salário, recebi tantas gratificações por trabalhar com as crianças, que é muito gratificante trabalhar aqui.

 

Eu também queria trabalhar em São Paulo por causa dos meus filhos, que nasceram nessa cidade. Nós voltamos para a Suíça durante três anos, mas só de licença, porque eu não queria cortar a possibilidade de voltar. Para mim era claro que esse é o melhor lugar para os meus filhos receberem uma educação bicultural, que não tem na Suíça.

 

E se o senhor tivesse a possibilidade de voltar para a Suíça definitivamente?

Eu não penso em voltar, mas nunca se sabe o que é o futuro. Se precisar voltar, sem problemas. Em qualquer lugar, não tenho problema de adaptação.

 

Como foi o começo da vida aqui no Brasil, teve muitas dificuldades?

Uma coisa é observar a classe durante três semanas e, depois, dar aula mesmo é uma grande diferença, o primeiro ano foi muito difícil. Ninguém falava nenhuma palavra em alemão e tem o temperamento dos brasileiros, é um grande desafio. Aquele ano, na minha lembrança, vale cinco (anos) dos outros.

 

O senhor dava aulas só de alemão?

Não. Os suíços, no primário, ensinam alemão, ginástica, música, artes e ciência (Sachkunde). E, infelizmente, não podemos dar aula de matemática, porque tem que ser em português. É uma coisa que sinto falta.

 

Como foi sua adaptação cultural?

Como é uma escola suíço-brasileira, não estávamos muito longe da Suíça. O corpo docente, naquele tempo, tinha mais de vinte professores suíços. Então, na pausa, se falava como na Suíça. Hoje é diferente. No colegial a escola não tem tantos suíços e hoje o entrosamento com os brasileiros é bem melhor do que antigamente, que era mais separado. Hoje é realmente uma escola suíço-brasileira.

 

Sente saudades da Suíça?

Do chocolate e do queijo até hoje (risos). A única coisa que falta é você abrir os olhos e não ver uma montanha com neve, disso realmente eu sinto saudade.

 

Volta frequentemente para lá?

Viajar para a Suíça é muito caro. Então, vou bem esporadicamente. De três em três anos, durante uma ou duas semanas, no máximo. De resto, as economias não permitem, infelizmente.

 

Teve algum momento, em todos esses anos, que o senhor se arrependeu de vir para o Brasil?

Não, para mim o Brasil é e sempre vai ser o país do futuro. Eu aposto no Brasil.

 

O senhor pesquisa muito sobre a imigração a suíça. De onde veio o interesse em fazer essa pesquisa histórica?

Quando mudei minha profissão para professor, a história já era a área que mais me chamava atenção. Daí eu fiz uma pesquisa sobre a família Lascha. Quando cheguei aqui e depois me casei, como o nome da família era alemão, logicamente eu fui pesquisar.

 

Primeiro, perguntei ao meu sogro o que ele sabia. Ele falava dos índios que mataram colonos e nós dizíamos: “Ah, não é verdade, isso é só uma história que eles contam na família, mas não têm prova nenhuma”. Então, fui atrás, até achar todas essas provas.

 

E nesse caminho sempre consegui mais informação e hoje tenho bastante coisa sobre a imigração de língua alemã para o Brasil.

 

Depois desses anos de estudo sobre imigração, que personalidades ou organizações suíças o senhor destacaria nos últimos anos da história do Brasil?

Desde que estou aqui, a escola recebeu várias visitas de conselhos do governo suíço, que são os Bunderaete e um desses — são sete na Suíça — é sempre o presidente.

 

Fazem um rodízio e cada um deles fica um ano no conselho. É a maior autoridade na Suíça e, nos últimos vinte anos, tivemos seis ou sete dessas visitas.

 

É lógico que eles não vieram para visitar nossa escola, mas para tratar de negócios com os brasileiros. Mas como já estavam aqui e a escola representa o centro cultural dos suíços, então eles apareceram. Acho que isso é uma coisa marcante.

 

E outras personalidades, com certeza, como o senhor Leimann, que é da Ambev. Ele tem raízes suíças. Ele é suíço e até contratou uma professora nossa para aprender o dialeto suíço, em aulas particulares. No início, quando cheguei aqui, nas grandes empresas os chefes eram todos suíços, vinham de fora. Agora as empresas mudaram, são brasileiros que trabalham, de maneira que a firma consegue até lucrar mais.

 

A que empresas o senhor se refere?

Às farmacêuticas, como a Ciba-Geigy, hoje Novartis. Eles tinham muitas pessoas que vieram da Suíça, com contratos para três ou quatro anos. Por causa desses suíços também é que foram fundadas as escolas. Porque sem esse apoio, as empresas talvez não conseguissem contratar alguém da Suíça para vir ao Brasil, nos anos 70.

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