Magy Imoberdorf

Por Célia Gambini

Nascida na Suíça alemã, Magy Imoberdorf destaca-se no cenário da publicidade brasileira. No Brasil desde 1969, a designer gráfica fez campanhas de muita popularidade, como para a Lycra e a Caninha 51: o slogan ‘Uma Boa Ideia’ é um dos mais lembrados na história da propaganda brasileira. Também é artista plástica e faz exposições no Brasil e no exterior desde 1984. É autora do livro “Tudo o que você quis saber sobre propaganda mas ninguém teve paciência para explicar”, um clássico feito com outros profissionais da área.

 

Como e quando é que você veio para o Brasil?

Vim em 1969. Eu tinha terminado a Escola de Artes, fiz um estágio em Paris, onde passei um ano. Eu queria ir para um país longe, fazer uma aventura. Na minha classe tinha uma amiga brasileira. Ela era noiva e arrumou um emprego para ele. Um dia, ela me encontra e diz: “Ai, arrumei um emprego para esse cara e a gente brigou”. Eu disse: “Você dá o emprego para mim que eu vou”. Eu me candidatei nessa agência, acabei fazendo os papéis e vim no lugar dele. Só que quando cheguei, a agência fechou. Não sei como eles foram tão irresponsáveis em me trazer, mais foi ótimo! Aí eu já estava aqui e continuei.

 

Você já tinha vindo para o Brasil?

Nunca, não falava uma palavra de português. Mas falava francês, Então, aprendi, foi muito rápida a minha adaptação.

 

E como foi a adaptação ao país?

Eu achei o povo tão simpático, tão gentil. Todo mundo se esforçando

para falar, todo mundo me convidando. Eu acho que em três meses eu já estava integrada, falando português. É incrível! Pelo menos naquela época, a impressão que eu tive foi uma espécie de abertura do povo daqui e uma quase fascinação pelos estrangeiros. Então, foi muito fácil a minha chegada.

 

Você já tinha alguma referência do Brasil?

O Brasil estava muito na moda na Europa. Glauber Rocha... E eu era da

época hippie, da ditadura militar, tinha o Caetano, tinha muita gente.

O Brasil estava lá fora, divulgando a música, os filmes, a cultura brasileira. Então, a gente tinha muito contato. Na França, principalmente, porque fiquei um ano em Paris e tinha muito brasileiro lá. E o Brasil, culturalmente, estava muito nivelado com a Europa, nivelado com o que estava acontecendo. O Brasil estava indo muito bem. Depois, começou a haver uma distância, a tecnologia, enfim, a pobreza daqui. E os governos brasileiros não trabalham muito a cultura, não dão dinheiro, não há uma verba para isso, como em outros países. Mas naquela época era muito interessante, porque o Brasil era um país culturalmente muito “na onda”.

 

Você foi para Lausanne e fez a École de Beaux Arts? Qual foi a sua formação?

Fiz a École de Beaux Arts, Artes Aplicadas, que no primeiro ano é geral.

Depois, são mais quatro anos para a especialidade e fiz Comunicação e Artes Aplicadas, que é propaganda, design Gráfico, toda essa parte. Na Suíça, na época, a publicidade não se aprendia, se fazia mais design gráfico. Mais tarde é que virou uma matéria, um ramo. Na época eram uns cartazes bonitos, com um nome “Belles Arts” escrito e acabou.

 

Talvez antes tivesse tido um momento de mais inovação, nos anos 50 e 60...

 

Quando eu vim essa era, inclusive, uma das coisas que se apreciava aqui. Os europeus com o grafismo, o design gráfico da Europa, porque aqui tinha muita influência americana. Então, nas agências eu sempre fui muito bem recebida, porque era chique ser europeu.

 

Você disse que chegou ao Brasil e a agência fechou?

É, fechou, mas depois de três semanas eu arrumei outro lugar. Todas as pessoas, ao contrário do que contei da Europa, as pessoas das galerias, todo mundo me recebeu. Se não tinha lugar, me indicavam para outra agência, para eu mostrar meu portfólio. Em pouco tempo, arrumei um emprego, fui trabalhar com o Neri Ferreira, onde aprendi, na verdade, a passar da estética pura, de fazer só essa coisa bonita, para ter ideias de publicidade mais marqueteiras. Era transferir um pouquinho, mudar um pouco de foco, mas a estética continuou, mantive isso. Fui diretora de arte e de agência de propaganda e tive muita facilidade. Acho que foi muito bom ter estudado na Suíça. E depois, foi a adaptação do humor, que na Suíça não existia nas peças. Até hoje, acho que na propaganda tem muito humor. Humor e bom humor, as duas coisas.

 

Aprendi a fazer filmes, aprendi um monte de coisas. Mas tinha uma base legal e acho que deu certo. Na arte também, eu sempre pintei, sempre fiz esculturas, sempre estive nas duas áreas. Mas era muito monocromático. E aqui caí num carnaval, fui na (rua) 25 de Março, aí, fiz minha primeira exposição. Foi em 84, com patchworks enormes, coloridíssimos, com aqueles tecidos da 25 de Março.

 

Ia naquelas épocas de carnaval, comprava tecidos brilhantes... Então, acho que foi uma boa. Houve um casamento da Suíça e Brasil, que eu adorei, achei que ficou muito bom.

 

Você não falava português, mas foi natural começar a aprender?

Primeiro, porque a gente tinha empregada em casa, os amigos, todo mundo falando português, seria uma imbecil se ficasse fazendo uma coisa à parte.

 

Acho meio esnobe esse tipo de coisa. Não acho muito simpático você ficar falando uma língua que as pessoas da casa não entendem.

 

E o fato de ter vindo para o Brasil, você acha que teria feito essa carreira na Suíça?

Eu tenho a impressão que não, teria sido bem diferente. Eu cheguei aos 23 anos. Logo nos primeiros dois, três anos, comecei a fazer campanhas de uma responsabilidade e com tanto dinheiro, que duvido que na Europa teria tido esse tipo de oportunidade.

 

Vir para cá mudou seu imaginário sobre o Brasil?

Eu cheguei numa fase em que peguei o melhor do Brasil. Eu não sei, mas era 11% de crescimento ao ano, na época do Delfim Netto. Claro, havia a ditadura militar, que não era bom, mas tinha crescimento, tinha dinheiro.

 

Os clientes, por exemplo, pagavam caro às agências. As agências eram consideradas como as que sabiam das coisas. Hoje, o cliente acha que a gente não sabe nada.

 

Mas a agência não é importante?

Acho que hoje se tem bem menos respeito pelas agências.

 

Porque se troca de agência?

Sim, se troca quando quiser. Pelo menos, não tem mais compromisso. Os negócios mudaram no mundo inteiro. A maneira de se trabalhar e de fazer negócios e a propaganda também mudou por completo. Na época, tinha uma taxa de 20% e todos os clientes pagavam. Com esse dinheiro, dava para pagar pesquisa, pagar bons salários. Então, era uma profissão de primeiro mundo num país, que evidentemente, tem primeiro mundo também. Eu ganhava prêmios internacionais o tempo inteiro, porque a propaganda aqui tem nível internacional. Acontece que, o varejo tomou conta da publicidade, porque a indústria, em vez de cuidar da marca, começou a passar o dinheiro para o varejo, porque ele compra mídia mais barata, e o varejo não tem nenhuma intenção de cuidar de marcas. Quanto menos marca tiver, melhor, porque ele consegue pressionar o preço e o consumidor não exige, né? Então, é excelente para o varejo. Isso começou a mudar. Hoje você vê, “Casas Bahia”, nenhuma agência aceitava essas coisas naquela época. Varejo era coisa que ninguém queria, tinha gente só para fazer isso.

 

Você acha que o sucesso tem a ver com as suas origens?

Sim. Acho que fiz uma escola muito boa lá, tenho uma base boa. Eu acho que é uma visão estética que os suíços têm, que é quase cultural, né? E ajudou. Acho que tudo isso faz parte de criar uma personalidade, tanto que entre os diretores de arte de maior sucesso há muitos europeus. E também, na época, ainda não tinham escolas muito boas de propaganda e de design gráfico aqui. Por exemplo, tem o Alexandre Wollner, que também estudou na Alemanha. Enfim, é mais difícil se aprender essa profissão aqui.

 

Você acha que houve um salto de qualidade?

Hoje em dia tem mais escolas. Não diria que são as melhores, mas tem coisas boas já, como o próprio SENAC. Tem algumas escolas que já são melhores e hoje as pessoas têm bastante possibilidade de estudar lá fora, o que não era tão comum naquela época. Mas acho que o segredo foi essa junção, essa mistura de Brasil e Suíça.

 

E você só ficou em São Paulo, nunca morou em outro lugar?

No começo, a primeira coisa que eu fiz foi viajar por esse Brasil afora, conhecer o Sul, São Miguel dos Anjos, fui de carro conhecer as missões. Aí eu viajei bastante pelo Norte, fui nos carnavais, eu queria conhecer o Brasil.

 

Hoje em dia, o que é estar em casa? Onde é sua casa?

É o Brasil, é aqui. Santana de Parnaíba é a minha casa também, agora eu percebi isso. Uma amiga me falou: você vai fazer parte de um clube. Porque é assim, quando eu estava no Brasil, queria voltar, quando estou na Europa, quero estar no Brasil. É verdade, a gente fica um pouco desenraizada, porque estou passando por um processo de mudança de profissão. Dois anos atrás tinha 50 pessoas à minha volta o dia inteiro. Eu me acostumei a trabalhar em equipe. Acontece que ser artista não é ser equipe, né? É muito solitário. Aliás, há alguns artistas com quem eu tenho de trabalhar em equipe, eu estou até procurando.

 

Você está querendo se enturmar, está muito solitária?

É muito solitário. Eu fico na frente de um papel em branco, enquanto a publicidade vive de intercâmbio, de ter contato o tempo inteiro com cineastas, fotógrafos, escritores, enfim, todo tipo de gente, clientes diferentes.

 

E de repente é você com você e o papel. Então, ficou muito diferente. Ainda pensei em fazer uma mudança de país, pensei em ficar 6 meses lá e 6 meses aqui, mas percebi que lá é muito solitário também.

 

Apesar de se sentir em casa no Brasil, você ainda pensava em voltar?

O problema é o seguinte: quando você não trabalha todo o dia num escritório em São Paulo, não há muita razão para se morar numa cidade como essa, que tem qualidade de vida bastante ruim. Uma das coisas que mais me incomoda é o trânsito, porque eu deixo de fazer coisas para não enfrentá-lo. Muitas coisas eu não faço, porque vou perder uma hora, uma hora e meia para chegar não sei aonde, então, não vou, é uma pena. Eu não queria me restringir a esse ponto. Começar a viver numa zona de conforto, onde você não faz mais nada porque não quer enfrentar o problema da cidade. Eu acho que está cada vez pior e nós não temos escapatória, porque em Paris você pode pegar o metrô, na Suíça

você pega o trem, tudo funciona. Aqui é uma angústia. Se você não anda de carro, vai como? A pé, talvez! E ainda pode ser assaltado. Eu acho que mudou a qualidade de vida na cidade de São Paulo.

 

E você decidiu deixar de trabalhar com a publicidade? Por quê?

Bem, foi mais ou menos circunstancial. Primeiro, porque eu queria muito

fazer a experiência de tempo integral, como artista.

 

Você sempre manteve a carreira de artista?

Ela sempre foi paralela e sempre roubando tempo, roubando fim de semana, o tempo que dava. E eu queria muito me dedicar a isso em tempo integral, porque é uma experiência que a gente tem que ter. Porque se você quer fazer seriamente, uma hora tem que fazer só isso. Você bota foco e pronto. E a propaganda, eu fiz durante 35 anos, acho que já deu. Isso é para os jovens.

 

Esse é um ponto que pesou?

Sim, que me pesa. Eu gostaria de fazer uma coisa, pelo menos exposições lá fora. Esse ano já fiz duas. Fiz uma em Basel e uma em Paris. Mas o próximo passo seria achar uma galeria que me represente lá fora, porque assim não preciso mais fazer esse trabalho. Porque eu quero me dedicar a fazer e não a organizar, a fazer o transporte. Fora o tempo, porque se tem uma noção diferente de tempo quando a gente envelhece, que tempo é precioso.

 

As pessoas a identificam como suíça, acham que você não é brasileira?

É muito pela maneira de ser. Eu tenho um jeito um pouco germânico de dizer o que eu penso. Os europeus, os suíços, e principalmente os de língua germânica, a gente tem uma maneira de falar, às vezes um pouco brusca. Esse é o meu lado que eles acham que é suíço. Outra coisa que não consigo é não chegar na hora.

 

Qual é a sua opinião hoje sobre a Suíça?

Eu acho que eles são muito malcriados, principalmente nos serviços.

 

Não é quando recebem os turistas, os estrangeiros?

Em geral, entre eles. Eu não sei por que os suíços são assim, principalmente o suíço-alemão. Suíço-francês é um pouco melhor, por exemplo, nos serviços, como correio, banco, restaurante, hotel, eu acho o serviço muito ruim. Eles não têm ideia do que seja o serviço, deveriam todos vir fazer um estágio no Brasil. Com o sorriso dos brasileiros, com a gentileza dos brasileiros, com aquela coisa de que “eu vou resolver”, mesmo que não seja da minha conta. Embora eu ache que existe aqui uma submissão do pobre versus o rico, porque ele morre de medo de perder o emprego, o que é muito grave também. Porque, às vezes, eles são mal-tratados aqui e não têm coragem de reagir. E lá reagem, porque ninguém leva desaforo para casa.

 

Quando você fala em qualidade de vida, não compensa ir para a Suíça?

É claro, tem todos os prós e contras. Eu acho que com relação à qualidade, tudo tem qualidade lá. A calçada, o asfalto, é tudo com muita qualidade. É muito legal isso, os ingredientes, a cozinha, tudo é muito bom, tudo é para durar 200 anos. O visual lá é perfeito. Eu acho que existe uma fase para tudo, acho que quando você é jovem não dá tanta importância para segurança, para qualidade de vida, você quer é bagunça. Mas quanto mais velho você fica, mais qualidade você quer. Acho que São Paulo piorou muito, a qualidade de vida piorou, o trânsito piorou.

 

Acho que foi desproporcional o que piorou, porque tem alguns ganhos.

Tem, de fato, a vida cultural. Acho que a cultura hoje já deu um salto.

 

Existe a ideia de que São Paulo é um centro cultural, em que se faz muito, tem um mercado, exposições de alto nível, você concorda?

Eu acho que São Paulo tem uma qualidade bastante alta se comparado a grandes cidades do mundo. Você não sente falta, porque lá tem muito mais dinheiro. Aqui se faz muito com criatividade. Sempre faz a exposição, a maneira de expor, com coisas bem baratinhas. Por exemplo, todos os livros estão expostos agora em mão francesa.. ele não pôs a prateleira, pôs um monte de mão francesa, milhares, então ficou muito lindo. Depois, faz uma mesa e põe os pregos e depois um acrílico em cima e embaixo tem as coisas, simplesmente enfiar prego, é uma coisa tão simples. Mas é muito genial.

 

Como você vê essa questão da migração ?

É, hoje você não consegue mais vir, está cada vez mais difícil imigrar. Na

época, ainda davam visto, mas você tinha que se candidatar e passar por uns exames. Tinha que passar por entrevistas. Hoje, eu tenho a impressão que é muito difícil.

 

Você acha que é por causa dessa dificuldade?

E também por causa do país, que antigamente tinha uma atração, desde cultural até para fazer carreira. Agora, não tem mais. Se eu viesse hoje, teria muita dificuldade em fazer alguma coisa aqui. Não teria essa facilidade. Primeiro, a gente era meio exclusiva, tinha pouca gente que sabia fazer aquilo. Então, tinha uma reserva de mercado aí. E a recepção era fantástica. Eu acho boa essa mistura dos povos, mas acho que agora não está mais acontecendo.

 

Como foi sua relação com o consulado durante esses anos?

Nunca tive muito contato. Por causa da minha exposição, essa foi a primeira vez que tive um contato mais próximo, que me procuraram.

 

E você acha importante?

Acho ótimo. Afinal, a gente tem uma identidade. Hoje a minha identidade é mista, digamos assim. Eu sou meio a meio, mas ela existe e é muito forte, porque eu passei toda a minha infância, juventude, minha educação foi na Suíça, isso é fundamental na minha vida. É óbvio, portanto, que acho interessante manter essas raízes. E acho muito bom ter contato, inclusive através do consulado, com outras pessoas suíças, que estão no Brasil, para trocar idéias, trocar experiências.

 

Você tem um lado suíço forte, mas, na sua opinião, o que você tem de brasileiro?

Eu acho que criei mais jogo de cintura. Às vezes, acho até que eu tenho humor, o que os suíços não têm. E eu aprendi uma coisa no Brasil: “Nada é impossível”. Isto não existe em outro lugar. Se você precisa de alguma coisa, tudo tem um caminho, isso se aprende aqui. O brasileiro está sempre pensando em como resolver alguma coisa, em como solucionar um negócio.

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