Rafaela Perucchi

Por Vânya Tsutsui

Da cidade de Lugano, um pequeno vilarejo da Suíça italiana, para São Paulo a adaptação foi imediata. Raffaella Perucchi veio ao Brasil em 1981 e, desde então, vive na capital, mas faz questão de voltar uma vez por ano à terra natal.

 

Além do trabalho como ilustradora, Raffaella é editora de estilo de uma das mais prestigiadas revistas de moda, a Vogue. Depois de cinco anos de estudos em desenho têxtil no cantão do Ticino, interessou-se pela moda e foi estudar em Paris. Na “Cidade Luz” Raffaella cogitou a possibilidade de vir ao Brasil, depois de ouvir falar das inúmeras possibilidades que existiam em São Paulo. Não hesitou em partir para um novo desafio, experiência inicialmente planejada para durar apenas dois anos, mas que se estendeu até hoje. Mergulhada na paixão pelo trabalho, consegue administrar perfeitamente a vida – aqui e lá: “Os dois países estão completamente integrados na minha vida, sem problema!”.

 

Em que cidade você nasceu na Suíça?

Eu nasci em Lugano, no Cantão do Ticino, na Suíça italiana, em 1957. Vivi lá até 78 e depois fui estudar em Paris, onde fiquei dois anos. Em 1981, vim para o Brasil. Eu tinha curiosidade, queria ter uma experiência temporária. E achava que para ter uma experiência de trabalho no país, eu precisava ficar pelo menos uns dois anos.

 

E que estudos você fez?

Fiz as Escolas Normais, básicas, que se chamam elementares. Depois, fui para um Centro de Escolas de Artes Aplicadas (Kunstgewerkeschule), no Ticino, (Cientro Escuolastico de Industria Artistichi), onde comecei a me direcionar para o que eu estou fazendo até hoje. 5 anos de escola, com diploma e acabei me formando em “Desenho Têxtil”, sou uma têxtil designer. Fui para Zürich e fiz estágio numa empresa renomada, a melhor, na época. Mas depois percebi que eu queria muito me aperfeiçoar em moda, em Paris. Acabei indo e foi lá que comecei a ouvir falar do Brasil, porque tinha também uma aluna brasileira.

 

Anteriormente você não tinha pensado em vir para cá?

De jeito nenhum. Depois de todos aqueles anos de desenho têxtil e design, eu pensei em ir para Paris e ficar por lá o resto da vida. Mas comecei a receber uns trabalhos, o primeiro trabalho remunerado e, depois, fui fazer umas estampas em Paris para uns clientes, via essa amiga do Brasil. Era o primeiro dinheiro que eu estava ganhando e era um sucesso. Ela começou a me estimular. “Você tem que vir para o Brasil. Você não sabe o campo, a chance que tem aqui”. E resolvi vir, junto com o namorado da época, que também fazia uma escola de arte. Terminada a escola em Paris, eu pensei: “Se for para ter uma experiência ainda, é agora”. Uma boa experiência num país como o Brasil, de dois anos, acho que acrescenta muito.

 

Além de São Paulo, morou em outras cidades no Brasil?

Não e nem quero. Eu viajei um pouco a trabalho por todo o Nordeste, o Norte. Mas mudança, nem pensar! Estou bem em São Paulo. Na verdade, hoje em dia, depois de tantos anos, vejo que a vida aqui não é fácil. É um preço alto que a gente paga para poder viver bem, com qualidade de vida, com segurança, é um grande stress. Então, se é assim, eu prefiro mergulhar de cabeça no trabalho, usar todas as minhas energias, fazer cada vez mais coisas novas ou me aprimorar. Porque se eu não puder mais fazer isso aqui, eu vou voltar para a Suíça.

 

Como foi o começo da sua vida aqui? Primeira semana, mês, ano?

Eu não tinha a menor ideia de nada e não conhecia ninguém. Mentira, eu conhecia, mas estavam todos viajando de férias. Em janeiro, estava um calor infernal. Eu falava: “Oi”, “bom dia” e mais nada. O primeiro impacto foi ver uma mistura de coisas. Não sei nem dizer se era tropical, se era étnico, se era moderno, se era cosmopolita. Eu não estava conseguindo identificar direito essa sociedade. Chegar em São Paulo não é como chegar em Berna, em Paris ou em Nova Iorque, com referências. Até pessoas que nunca viajaram sabem que tem um centro, tem a Tour Eiffel, tem esse ou aquele tipo de bairro. Aqui, o centro é o caos, perigoso. Eu tenho uma grande pena. Os bairros mudam de bons para ruins em questão de meses. Então, você tem que ficar atenta, porque pode estar morando num bairro que amanhã estará desvalorizado. As pessoas são inidentificáveis em São Paulo: tem chineses, japoneses, caras alemãs, índias, italianas, árabes, algumas africanas. Não é como chegar na Bahia, onde você sente algo uniforme. Aqui é a cidade onde quase tudo é possível.

 

Como foi sua adaptação cultural?

Imediata. É incompreensível. Eu morava numa cidadezinha microscópica, não era nem Genebra, Zurique ou Basel. Lugano é um vilarejo pequenininho. Eu me mudei para cá, me senti em casa. Moro na Paulista e antes morava na Faria Lima. Sou urbaníssima, gosto dessas visões, desses prédios. Gosto do movimento, das luzes, da noite, da cidade. O barulho não me incomoda muito. Agora, tem coisas que sinceramente não só me incomodam como me apavoram, é me sentir cada vez menos segura. O único lugar seguro é a minha casa. Isso me incomoda muito, porque não é como antigamente.

 

Na primeira vez que você veio, você ficou por dois anos?

Não, eu vim e fiquei. Nunca fiquei um ano inteiro sem ir para a Suíça, sempre ia passar o Natal. Só que a ideia de ficar dois anos aqui e depois voltar para lá mudou completamente. Eu mudei de apartamento, mas não mudei de cidade. Estou aqui desde 1981 e todo ano eu voltava para a Suíça.

 

Inicialmente, ia uma vez por ano e ficava três meses, um longo tempo. Depois, não foi mais possível, por causa do trabalho. Comecei a ir duas vezes e ficar menos tempo. Agora, estou indo cada vez mais para, aos poucos, equilibrar a vida, meio a meio, um pouco lá, um pouco aqui.

 

Você acha que teria o mesmo sucesso profissional se continuasse lá? Ou aqui teve mais oportunidades?

Eu acho que teria tido, com a absoluta certeza, oportunidades completamente diferentes. Hoje em dia, depois de 26 anos, acredito que de maneira alguma elas seriam melhores ou piores. Eu gosto do meu trabalho e teria mergulhado da mesma maneira lá, obviamente com outras oportunidades. Só que isso eu nunca vou saber, não dá para voltar para trás. Mas pelo tipo de cultura, pelo tipo de abertura que o Brasil tem em relação ao trabalho, às relações humanas, aqui foi muito enriquecedor.

 

O fato de ser suíça lhe ajudou de alguma maneira?

Ajudou, mas é uma faca de dois gumes. Existe uma lenda, um mito em relação à Suíça, de que o cidadão suíço (e a Suíça) é o que há de confiável, de correto, de pontual, de impecável, de seguro, de qualidade, de alto nível.

 

Eu sou uma pessoa muito séria, mas acaba aí. Depois, cabe a você arregaçar a manga, trabalhar que nem uma maluca, ter jogo de cintura e, se você for suíça, segurar a ‘suícisse’ no meio dessa loucura tropical e dessa exigência. Porque São Paulo está ficando cada dia mais exigente, é uma cidade de altíssima exigência profissional e cultural. Então, você tem que ser realmente ágil. Porque os brasileiros são abertos, eles gostam de outras raças, das pessoas que vêm de outras cidades e gostam tanto que são um pouco deslumbrados com tudo o que vem de fora. Mas atenção, esse é só um primeiro passo! Na sequência, eles cansam e você já está ultrapassado. Vir da Suíça me ajudou, pela disciplina, pela criação, pelo tipo de educação que, de uma maneira geral, os suíços têm. Eu sou, de certo modo, uma ilha onde sempre se pode aproar, sem muitas surpresas de eu ser oito ou oitenta. Se eu me comprometo com alguma coisa, eu faço. As pessoas que me conhecem, clientes de 25 anos atrás até hoje são meus amigos e meus clientes. Existe um respeito incrível e acho que isso também é graças ao fato de ser suíça.

 

Quando você chegou, já começou a trabalhar com o que faz hoje?

Na hora. Eu tinha um amigo, que me indicou para pessoas muito importantes, muito focadas, interessadas no meu trabalho, na minha área. Na hora o leque começou a se abrir de tal maneira que começaram a me chamar para fazer uma coisa e depois outra. Só que não era exatamente a minha especialidade. Mas aqui existe assim uma espécie de expansão horizontal tão gostosa que eu comecei a vestir a camisa e foi fantástico.

 

Você se sente à vontade, em São Paulo ou no Brasil, em ser identificada como suíça?

Eu não sei bem como sou identificada. Mas eu só sei de uma coisa: que eu acho tão bonitinho isso. Muitas vezes eu fui chamada em entrevistas como “a suíça mais brasileira que eu já vi, e a brasileira mais suíça que eu conheci”.

 

É uma mistura mesmo de Suíça e Brasil?

É uma mistura, com respeito a mim, ao que eu sou, ao que sempre serei, que é a minha origem. Eu não me sinto uma emigrada, ou uma imigrada. Eu me sinto verdadeiramente uma suíça que saiu da Suíça para trabalhar em outro país, mas que está voltando a toda hora. É como se eu estivesse fazendo um trabalho, numa outra cidade, mas eu volto para minha casa. A minha casa que digo é lá. São Paulo eu também considero como a minha casa, mas lá eu tenho todas as raízes. É impossível conseguir criar raízes vindo para cá aos 23 anos. Se eu tivesse vindo aos 3 ou 4 anos, talvez, mas minha família está lá.

 

Você voltaria para a Suíça definitivamente?

Já pensei. Acho que sim, mas não agora, daqui a um bom tempo. Só para relaxar e pensar em passar o resto dos meus dias em Lugano. Eu gostaria, não sei se vai ser possível, se vai acontecer. Mas, por enquanto, penso no trabalho, ainda tenho muita coisa para fazer.

 

Qual é a sua filosofia de vida?

Eu gostaria de ter uma vida tranquila, plena, muito em paz comigo mesma. Adoraria chegar numa idade e poder dizer: “Puxa vida! A minha vida valeu mesmo, que bom! Aconteceram muitas coisas boas”. Se eu chegar nisso, eu ficaria realmente feliz, por enquanto, estou ainda na luta.

 

Uma outra filosofia é essa: a gente não pode dominar nem mudar a direção das ondas, mas podemos aprender a surfar em cima delas.

 

E o que significa para você ser “imigrante”?

Eu não me sinto imigrante. Eu tenho contato com a Suíça, em particular, todo o dia, várias vezes ao dia. Inclusive, visualmente, com o Skype. Eu não sinto saudade de lá e não sinto saudade daqui, porque os dois países estão completamente integrados na minha vida, sem problema. Eu não me sinto como um peixe fora d’água aqui no Brasil e não sinto isso na Suíça, como alguém que saiu de lá. Porque quando você vai embora de um país e não volta mais durante vinte anos, é um choque voltar. Você se sente um estrangeiro em seu próprio país. Eu não.

 

Qual é a sua opinião sobre a Suíça de hoje?

Eu já fiz 50 anos e estou apreciando cada vez mais a Suíça. Quando eu era jovem e estava louca para sair, para ir para Paris, para vir para o Brasil, eu achava a Suíça um país muito conservador, travado, limitado, muito provinciano. Hoje em dia, eu acho a Suíça um pequeno luxo. E não é o luxo, dinheiro, chique, é uma ilha maravilhosa. É um lugar onde se pode viver realmente muito bem. Eu gosto da variedade, da diversidade geográfica que você encontra na Suíça. Essa mistura de raças, línguas, idiomas: são alemães, italianos, são culturas que se misturam na própria Suíça. Você realmente vê o suíço alemão, o suíço italiano, o suíço francês. É uma coisa sutil. A Suíça tem um potencial, apesar de tudo. A gente fala de países novos, de Brasil, mas acho que a Suíça ainda tem um grande potencial a ser descoberto, a ser exportado, a ser mostrado para o mundo inteiro.

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